
SAPO Mag: Antes de falarmos das novidades, vamos ao início de tudo: quando nasceu o teu interesse pela música?
Márcia: O meu interesse pela música surgiu muito cedo na vida. Sempre ouvi melodias na minha cabeça e, como consequência, vivia cantarolando para mim mesma. E isso acontecia nos momentos mais aleatórios – as melodias mais únicas simplesmente surgiam. Foi então aí que meu pai decidiu colocar-me em aulas de piano, algo que, para ser sincera, nunca me encantou completamente.
Depois, passei a me ensinar a cantar, para que pudesse dar voz às melodias que ecoavam na minha mente, em vez de apenas as cantarolar. Praticava por horas, mas, no início, ninguém acreditava no meu talento vocal. Ainda assim, continuei no meu próprio ritmo.
Aos 20 anos, conheci o produtor e artista Nichols durante um showcase em Hamburgo. Um ano depois, fui para Paris por um mês, onde gravamos intensamente e finalizamos meu álbum de estreia nesse curto período. Apenas dois meses depois, meu primeiro álbum foi lançado – e o resto é história…
SAPO Mag: No início, quais foram os principais desafios?
Márcia: No início, eu apenas seguia o flow, mas logo comecei a perceber que havia uma grande confusão em torno dos pagamentos das vendas físicas. Além disso, o tratamento inadequado por parte da minha própria gestão levou-me a deixar a gravadora e a seguir a minha carreira de forma independente – algo para o qual, sinceramente, eu não estava preparada.
Eu não tinha uma equipa ao meu redor, nem pessoas de confiança com quem pudesse contar. Fazia tudo sozinha, sem realmente entender como a indústria da música funcionava. Além disso, não sabia como proteger a minha propriedade intelectual, direitos autorais e outros processos essenciais do setor, o que fez com que me desgastasse.
Na época, eu ainda era estudante e decidi focar na conclusão do meu bacharelado em design de interiores. Foi então que fiz uma mudança radical e mergulhei de cabeça na minha carreira de design.

SAPO Mag: E durante a pausa na carreira da música, mudaste um pouco de área, não foi?
Márcia: Sim. Pouco após formar-me, imigrei para os EUA e mergulhei na minha carreira em design. Trabalhei com marcas como a FilzFelt (uma submarca da Knoll) como Architectural Application Specialist, colaborando com arquitetos e designers para aplicar os seus projetos personalizados e supervisionar a fabricação. Mais tarde, segui para a West Elm como Lead Designer, focada em projetos residenciais.
Essa experiência proporcionou-me uma compreensão valiosa do lado corporativo da indústria do design, especialmente ao perceber que as normas, regulamentos e práticas do setor nos EUA são bem diferentes das da Alemanha, onde estudei.
Em 2017, decidi trabalhar de forma independente e também comecei a colaborar com meu marido, que é diretor e editor de vídeo, em diversos projetos onde pude explorar a minha criatividade de novas formas além da música. Adorei os desafios que surgiram com isso, confiando no processo e refinando as minhas habilidades e expertise.

Já em 2020, resolvi transformar uma fórmula de manteiga corporal à base de plantas, que eu havia desenvolvido há 12 anos – e que, inicialmente, nunca tive intenção de comercializar. O incentivo de amigos e familiares foi essencial nessa decisão. Usei a minha experiência em design para criar todo o conceito da marca, desde a identidade visual e embalagem até o site, as sessões de fotos e a criação de conteúdo.
Nos últimos dois anos, dediquei-me a consolidar a marca enquanto mantinha o meu negócio de design. Foi, sem dúvida, um grande desafio, mas essa jornada ensinou-me muito e expandiu a minha visão criativa e empreendedora.
SAPO Mag: Saltando para o presente, quando surgiu a vontade de voltar à música?
Márcia: Esse desejo de voltar surgiu gradualmente. Nunca tive uma noção real do impacto do meu sucesso musical, pois nunca vivi no mesmo país onde minha música era consumida. Isso facilitou para que eu me desapegasse da minha carreira musical e permitisse-me viver uma vida mais “normal”, focada na minha trajetória no design. Durante esse período, a minha vida foi muito silenciosa – cheguei até a parar de cantar, a ponto de perder a minha habilidade vocal.
Eu sabia que, com prática, poderia recuperar essa capacidade, mas o processo foi mais longo do que imaginei, pois eu ainda trabalhava como designer, era mãe e me dedicava a outros projetos ao mesmo tempo. Em 2014, voltei a gravar e logo percebi o quão bem me sentia depois de cada sessão. A sensação de prazer era imensa, e percebi o quanto a música fazia falta na minha vida. Isso me motivou a continuar.

Em 2019 e 2020, lancei duas músicas, Doubts e Nunca Mas, que, de certa forma, foram uma espécie de ensaio, já que sonoramente não eram exatamente o que o público esperava de mim. Por um momento, isso desanimou-me. Mas tudo mudou quando meu filho passou por uma crise de saúde – algo despertou dentro de mim. Esse acontecimento, somado ao falecimento das minhas duas avós, fez com que eu sentisse uma urgência ainda maior de seguir os meus sonhos, pois a vida se mostrou extremamente frágil.
SAPO Mag: O que estás a preparar? O que nos podes contar sobre este comeback? Vem aí um disco, singles...?
Márcia: Nesta fase da minha vida, sinto-me mais madura e com uma bagagem de experiências que quero transbordar na minha música de forma autêntica e genuína. É exatamente isso que estou a fazer, estou a explorar o meu som de maneira expansiva, sem me prender a géneros específicos.
Atualmente estou a trabalhar com produtores como El Conductor (ex-membro dos Buraka Som Sistema), Kaysha, Malcom Beats, Fresh Beats, entre muitos outros nomes conhecidos do mercado, para realmente explorar e inovar, e criando um som novo e fresco — um reflexo da evolução da Márcia de Vida e Je T’aime Encore.
O plano é lançar singles antes do álbum, e posso dizer que haverá algumas surpresas pelo caminho.
SAPO Mag: E podemos também esperar concertos em breve? E em Portugal?
Márcia: Sim, já comecei a minha tour pela Europa, passando por cidades como Paris, Luxemburgo e, recentemente, fiz dois shows em Lisboa. Em março, terei apresentações em Bulle, na Suíça, e em Providence, Rhode Island, nos EUA. Em breve, anunciaremos mais datas!
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