James Cameron, o criador de sucessos cinematográficos como "Exterminador Implacável", "Aliens" e "Titanic", foi um dos pioneiros do uso de novas tecnologias na Sétima Arte, mas em entrevista à France-Presse em Paris disse que se vê como um "dinossauro", porque ainda gosta do lápis e do papel para imaginar as suas histórias.

"L'Art de James Cameron" é uma exposição que abriu esta quinta-feira na Cinemateca Francesa, umas horas depois da inauguração com a presença de muitas estrelas, e ficará em exibição até janeiro. O visitante poderá explorar os rascunhos que Cameron desenhou desde a sua infância até à saga "Avatar".

Qual importância tinha o desenho na sua infância?

James Cameron: O desenho era tudo. Era como processava o mundo. Lia, via filmes, absorvia toda a narrativa e depois simplesmente tinha que contar a minha versão. Lembro muito claramente que, aos oito ou nove anos, fui ver o filme "A Ilha Misteriosa". Fiquei assombrado pelas grandes criaturas e o caranguejo gigante, mas quando voltei para casa não desenhei "A Ilha Misteriosa": desenhei minha própria versão com animais diferentes.

Recordo-me de levar muito a sério no Ensino Secundário a disciplina de desenhar em todos os tipos de estilos diferentes. Criei as minhas próprias histórias em banda desenhada. Pensei que talvez escrevesse um romance e o ilustraria. Ainda não existiam os romances gráficos, mas estava a pensar em banda desenhada... portanto realmente tinha planos. A transição para o cinema foi bastante fácil.

James Cameron, Sigourney Weaver e o realizador e Presidente da Cinemateca Francesa Costa Gavras

Como é que esses primeiros desenhos inspiraram os seus filmes?

Fiz (o meu primeiro desenho de "Avatar") quando tinha 19 anos, portanto já fez 50 anos. Esse desenho levou-me a pensar num mundo bioluminescente e escrevi uma história sobre isso no final dos anos 70. No início dos 90, quando fundei uma empresa de efeitos visuais e estávamos a tentar fazer personagens e criaturas geradas por computador, necessitava de um argumento sobre outro planeta, pelo que voltei atrás e encontrei esse trabalho artístico e isso tornou-se "Avatar" – em 1995.

A imagem d´ "Exterminador Implacável" surgiu-me num sonho. Estava doente, tinha muita febre e nesse sonho febril vi um esqueleto de titânio a emergir de um incêndio. Desenhei-o de imediato. E depois pensei: "Como chego ali? Como era antes?". E instintivamente soube que parecia humano antes do incêndio.

Quando era miúdo, tinha sonhos de passar por túneis aquáticos a grande velocidade, como um sistema circulatório, que terminavam no abismo. Tive um pesadelo sobre estar numa casa onde as paredes estavam cobertas de vespas que me matariam, e isso tornou-se uma cena de "Aliens" onde ela corre em direção à câmara dos ovos.

"Avatar"

Acredita que as crianças estão a perder esses talentos por causa da tecnologia?

Não acredito que possamos retroceder, mas acredito que é importante que as pessoas desliguem-se de vez em quando. É importante passar tempo na natureza, passar tempo consigo mesmo, simplesmente acalmar a mente. As pessoas são muito criativas, mas se estão constantemente a ser bombardeadas pela criatividade de outras pessoas com filmes, jogos, isso tende a contê-las.

O desenho está a tornar-se uma arte perdida. Inclusive os artistas que trabalham comigo geralmente não usam lápis e papel. Consideram-me um dinossauro porque apareço e desenho algo, mas tenho que senti-lo com linhas e texturas.

A inteligência artificial preocupa-o?

O problema é que há diversos tipos de IA, algumas das quais ainda não chegaram. A Inteligência Artificial generativa é uma grande incógnita. Acredito que definitivamente deveríamos colocar travões nesse campo.

Em termos de IA generativa... isso é realmente interessante porque os dados que recolhem são todas as imagens que os seres humanos criaram. Estamos a exibir o nosso subconsciente, que regressa para nós através dessas imagens. Por isso são tão convincentes, porque realmente somos nós em grande medida. Acredito que o artista humano se vai tornar mais importante.

Pode dar-nos pistas sobre "Avatar 3"?

No terceiro filme estamos num momento de transição entre lutar pela sobrevivência da Terra e de Pandora. Estamos a explorar outras culturas no planeta e consolidando a história do vilão. Há imensas coisas novas que acontecem com a família de Sully... e apresentamos uma nova personagem que depressa se torna uma parte importante da história. É preciso lembrar que isto é um arco narrativo que vai de um até cinco, e estamos justamente no meio.

Mas posso prometer isto: seja o que pensem que vai ser, não vai ser.